Post em linha reta

Posted On Abril 4, 2008

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Apetece-me escrever mas não sei sobre o quê. Vai daí lembrei-me do poema em linha reta do meu amado Álvaro de Campos ( que coisa mais abixanada!) . O tal poema em que ele diz que nunca conheceu ninguém que tivesse levado porrada e que foi ridiculo às criadas de servir, entre outras confissões meio gays. Depois se tiver pachorra meto-o aqui ao lado numa das páginas.

Mas porque que é que ainda hoje ler Álvaro de Campos pela 1ª vez é como levar um murro no estômago? Porque apesar de ser tuga como nós era capaz de se rir de si próprio. Talvez por ter crescido em Durbam, mas que se lixe.

 Mas nós adoramos os ” doidos chalados” capazes de confessarem os seus medos e angustias. Para logo voltarmos à nossa pesada tradição de herdeiros duns quaisqueres Silva Pereira, familia séria e quase histórica, que exige de nós uma postura “em linha reta”.

Por vezes pergunto-me porque é que um povo tão ufano e tão ligado ao mar, nunca se deitou a afogar colectivamente???!!!

4 Responses to “ Post em linha reta ”

  1. zuuuma

    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo.
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó principes, meus irmãos,

    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?

    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

    Álvaro de Campos

  2. Hugo Pratas

    O acordo ortográfico já foi aprovado e está em vigor? Se não foi, ainda é reCta (não sou conservador, se quiserem levem os acentos todos, agora o C… para mim fato não é terno). Quanto ao afogamento colectivo, somos ligados ao mar mas não sabemos nadar.

  3. ronaldo7

    Olha-me este. Um fato de facto é um fato. Deu-me para abrasileiar o FP, porque será? Mas “poema em linha reta” cheira muito menos a hemorroidas, que RECTA, temos que reconhecer! No tempo do Pessoa devia escrever-se “phoema” sei lá.
    P.S. Quem é que não sabe nadar’ Conheço gajos que até tiveram aulas tardias e tudo lol
    P.S2 A espuma ainda não se vem, pois não?

  4. Hugo Pratas

    Agora que a espuma descobriu os doze vai ser só natação.

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