Hoje, graças a uma bola de borracha, que saiu voando pela janela,  passei horas com o Artur, que é o filho de 3 anos da minha empregada.

Já não me divertia tão genuinamente há muito tempo. O mundo, mesmo o mais trivial, visto pelo olhos de uma criança é completamente novo. O seu espanto quando finalmente encontramos sua  pequena bola vermelha rodeadas de pombas, entretidas com coisas de pomba: – Como elas não comeram minha bola?

Vamos no café, pede um copo de água, a senhora lhe dá um. Ele bebe mas no final faz questão de trazer o copo: – Ela me deu o copo de água choramingava. O melhor do mundo são mesmo as crianças:

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Fernando Pessoa

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