poesices


Hoje, graças a uma bola de borracha, que saiu voando pela janela,  passei horas com o Artur, que é o filho de 3 anos da minha empregada.

Já não me divertia tão genuinamente há muito tempo. O mundo, mesmo o mais trivial, visto pelo olhos de uma criança é completamente novo. O seu espanto quando finalmente encontramos sua  pequena bola vermelha rodeadas de pombas, entretidas com coisas de pomba: – Como elas não comeram minha bola?

Vamos no café, pede um copo de água, a senhora lhe dá um. Ele bebe mas no final faz questão de trazer o copo: – Ela me deu o copo de água choramingava. O melhor do mundo são mesmo as crianças:

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Fernando Pessoa

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos

Como estou contente quero despedir-me com algo de que realmente gosto.
Gosto de muita coisa, mas algumas coisas de Álvaro de Campos batem-me particularmente. Queria ir dormir, mas o meu vizinho cansou-se de ouvir música nordestina e está numa de Elton Jonh! Apesar de estar baixinho vai ficar dificil adormecer, com tamanha asquerosidade de fundo. Espero não ter que voltar para aqui.
Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida …
Sou isso, enfim …
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Sei lá porque, se calhar até sei, mas isto virou moda familiar, é rara a ceia de Natal que algum dos Mareados que compõe a minha familia não diz “Gostava de gostar de gostar”

Gostava de gostar de gostar.
Um momento… Dá-me de ali um cigarro,
Do maço em cima da mesa de cabeceira.
Continua… Dizias
Que no desenvolvimento da metafisica
De Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto.
Estive realmente a ouvir.
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho).
Que coisa curiosa estas associações de idéias!
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel…

Apetece-me escrever mas não sei sobre o quê. Vai daí lembrei-me do poema em linha reta do meu amado Álvaro de Campos ( que coisa mais abixanada!) . O tal poema em que ele diz que nunca conheceu ninguém que tivesse levado porrada e que foi ridiculo às criadas de servir, entre outras confissões meio gays. Depois se tiver pachorra meto-o aqui ao lado numa das páginas.

Mas porque que é que ainda hoje ler Álvaro de Campos pela 1ª vez é como levar um murro no estômago? Porque apesar de ser tuga como nós era capaz de se rir de si próprio. Talvez por ter crescido em Durbam, mas que se lixe.

Mas nós adoramos os ” doidos chalados” capazes de confessarem os seus medos e angustias. Para logo voltarmos à nossa pesada tradição de herdeiros duns quaisqueres Silva Pereira, familia séria e quase histórica, que exige de nós uma postura “em linha reta”.

Por vezes pergunto-me porque é que um povo tão ufano e tão ligado ao mar, nunca se deitou a afogar colectivamente???!!!

É a ultima por hoje, prometo

O link já estava num dos comentários, mas “Aguirre o conquistador” de Werner Herzog e com música dos Popol Vuh é dos filmes mais mágicos que vi ma minha vida.

Fica aqui o começo, para quem não entende Italiano deixo uma tradução quase selvagem:

25 de Dezembro de 1560, atingimos a ultima barreira na cordilheira dos Andes. Finalmente aproximamo-nos do objectivo. Aqui estão as grandes florestas da nossa terra prometida. De manhã celebro a missa, e depois começámos a subir pelo meio das nuvens.
Sem palavras, e isto é só o começo, se puderem vejam o resto.

Já agora deixo aqui a sinopse deste filme.

Nas minhas viagens secretas, dei um concerto dos Doors em L.A.

Nas minhas viagens secretas, despertei Marilyn mais sexi que nunca.

Nas minhas viagens secretas, criei a cacãnia de Musil com os meus amigos.

Entre a ilusão da minha vida sonhada e a tristeza da minha vida real.

Uma só realidade, a morte.

P.S: Texto escrito por este vosso tasqueiro, há quase 30 anos para uma banda de rock Bracarense.

Só me lembro da 1ª estrofe e do final, tinha isto guardado, mas perdi-o da última vez que tentei arrumar a casa, para aí há um ano lol. Nunca + arrumo nada.

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